Mais de 700 vulcões podem ficar mais perigosos com o aquecimento global. Entenda o estudo que liga chuvas extremas e risco vulcânico.

Mais de 700 vulcões podem ficar mais perigosos com o aquecimento global. Entenda o estudo que liga chuvas extremas e risco vulcânico.


Aquecimento global deve intensificar chuvas extremas e elevar risco em mais de 700 vulcões

Mudanças climáticas elevam risco vulcânico por chuvas extremas e degelo de geleiras

Aquecimento global deve intensificar precipitações intensas em mais de 700 vulcões e reduzir a pressão da crosta em regiões glaciais, aumentando erupções, colapsos e lahars nas próximas décadas.

O aquecimento global está reconfigurando os riscos associados a vulcões ativos em todo o planeta. Dois mecanismos principais se destacam: o aumento de chuvas extremas e o derretimento acelerado de geleiras. Pesquisas recentes mostram que esses processos, isolados ou combinados, tendem a elevar a frequência de erupções, colapsos de flanco e fluxos de lama vulcânica (lahars) até o fim do século.

Chuvas extremas: o principal gatilho projetado


Estudo publicado em 2022 na *Royal Society Open Science* por Jamie I. Farquharson e Falk Amelung analisou nove modelos climáticos do CMIP5 no cenário de altas emissões (RCP 8.5). O trabalho calculou a “resposta forçada do modelo” (FMR) — a variação percentual da precipitação máxima mensal por grau de aquecimento global.

Resultados principais:

- 716 dos 1.234 vulcões subaéreos ativos no Holoceno (58%) estão em regiões onde a maioria dos modelos prevê aumento de chuvas extremas.
- Apenas 111 vulcões (9%) ficam em áreas de redução projetada.
- Em 244 vulcões (19%), o aumento médio supera 5% por grau Celsius. Em 19 deles, localizados principalmente nas Galápagos, Rift Africano Oriental e Papua-Nova Guiné, o valor chega a 20% ou mais.
- O padrão se mantém, embora com menor concordância entre modelos, nos cenários intermediário (RCP 4.5) e de forte mitigação (RCP 2.6).

Chuvas intensas já são reconhecidas como gatilho de atividade vulcânica. Relatórios do Smithsonian’s Global Volcanism Program associam precipitação extrema a perigos em pelo menos 174 vulcões (cerca de 13% do inventário mundial). Exemplos documentados incluem explosões em Merapi (Indonésia), Soufrière Hills (Montserrat), Fuego (Guatemala), Guagua Pichincha (Equador) e Mount St. Helens (EUA), além de lahars com resposta de minutos a horas após chuvas fortes.

Degelo de geleiras: descompressão da crosta


O derretimento de geleiras e calotas de gelo reduz a carga sobre a crosta terrestre. Essa descompressão isostática diminui a pressão sobre câmaras magmáticas, facilitando a formação e a ascensão de magma. O mecanismo já foi associado a aumentos de atividade eruptiva em diferentes períodos geológicos.

Evidências históricas:

- Nos últimos 30 mil anos, períodos de aquecimento e retiro glacial coincidiram com aumento de grandes colapsos vulcânicos.
- Na Islândia, o fim da última era glacial foi seguido por pico de erupções.
- Padrões semelhantes aparecem no Alasca, Andes e Antártica.

Regiões atualmente mais expostas incluem a Islândia, o arco das Aleutas, a Patagônia e ilhas antárticas. A velocidade atual do degelo é sem precedentes no registro recente, o que pode antecipar respostas vulcânicas antes previstas apenas em escalas de milhares de anos.

Riscos combinados e impactos práticos

Os dois processos atuam de forma sinérgica:

- Mais água de degelo + precipitações intensas elevam a probabilidade de lahars e inundações.
- Encostas enfraquecidas pela perda de gelo tornam-se mais suscetíveis a deslizamentos e colapsos de flanco.
- Em vulcões com domos de lava, a infiltração de água pode desencadear explosões freáticas.
O estudo de 2022 destaca que o aumento de chuvas extremas ocorre não apenas nos trópicos, mas também em regiões polares e temperadas, exatamente onde o degelo é mais intenso. Isso amplia o risco em arcos vulcânicos como Cascades, Alasca, Kamchatka, Andes e Caribe.

O que se sabe até agora:

- Chuvas extremas já desencadearam ou agravaram perigos em pelo menos 174 vulcões.
- 58% dos vulcões subaéreos ativos no Holoceno devem enfrentar mais precipitações intensas no cenário de altas emissões.
- A descompressão causada pelo derretimento de gelo é mecanismo reconhecido de estímulo à atividade magmática.
- A combinação de degelo e chuvas intensas cria cenário de risco composto em diversas regiões.
- Monitoramento meteorológico e glaciologico ainda não é padrão na maioria dos sistemas vulcânicos.

Monitoramento e próximos passos

Agências em países como Islândia, Estados Unidos e Chile já integram dados de retiro glacial e precipitação em avaliações de risco. Técnicas como interferometria de radar (InSAR) permitem acompanhar a deformação crustal em tempo real.

Especialistas recomendam:

- Incorporação rotineira de dados meteorológicos no monitoramento vulcânico.
- Treinamento interdisciplinar para lidar com desastres compostos.
- Estratégias de adaptação em comunidades próximas a vulcões glaciais e de alta precipitação.
Novas gerações de modelos climáticos (CMIP6) e simulações vulcânicas estão sendo combinadas para refinar as projeções. Mesmo em cenários ambiciosos de redução de emissões, o aumento de extremos de chuva e o degelo continuam projetados, reforçando a urgência de ações preventivas.

O cenário futuro aponta para maior incidência de perigos vulcânicos ligados ao clima em grande parte do planeta. A integração entre climatologia, glaciologia e vulcanologia será decisiva para reduzir impactos sobre populações e infraestrutura nas próximas décadas.



Estudo publicado em: Royalsocietypublishing
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